quarta-feira, 5 de agosto de 2009

OS SENHORES DA GUERRA

A Al-Qaeda não está preocupada com o que fazemos no Afeganistão. Podemos bombardear povoações afegãs, perseguir os talibãs na província de Helmand, construir um forte exército afegão de 100,000 mercenários, observar passivamente enquanto os senhores da guerra executam centenas, senão milhares de prisioneiros talibãs, construir imensas e elaboradas bases militares e enviar drones (aviões não tripulados) para bombardear o Paquistão. Não fará diferença. A guerra não porá termo aos ataques dos radicais islâmicos.
Artigo de Chris Hedges
Os terroristas e guerrilheiros não são forças convencionais. A sua conduta não se rege pelas regras de combate que os nossos comandantes treinaram nas academias e escolas de guerra. E estes grupos clandestinos são versáteis, mudando de forma e cor conforme se movem de um estado falhado para outro, para planear um ataque terrorista e desaparecer na sombra. Estamos a lutar com as ferramentas erradas. Estamos a combater as pessoas erradas. Estamos no lado errado da história. E seremos derrotados no Afeganistão como o seremos no Iraque.
O custo da guerra do Afeganistão está a aumentar. Dezenas de milhares de civis afegãos foram mortos ou feridos. O mês de Julho foi o mais mortífero na guerra para os militares da NATO, com pelo menos 50 mortos, incluindo 26 norte-americanos. Ataques com minas na estrada tendo como alvo as forças da coligação engrossam o número de mortos e feridos. Em Junho, a contagem deste tipo de ataques, igualmente designados engenhos explosivos improvisados, atingiram os 736, um recorde pelo quarto mês consecutivo. O número aumentou de 361 em Março para 407 em Abril e para 465 em Maio. A decisão do Presidente Obama de enviar mais 21.000 soldados norte-americanos para o Afeganistão, aumentou a nossa presença para 57,000 militares. No total espera-se que aumente até pelo menos 68.000 até ao final de 2009. Significará apenas mais mortes, mais combate e será infrutífero.
Demos de cara com uma confusa miscelânea de grupos armados que incluem gangs criminosos, traficantes de drogas, as milícias pashtun e tajique, redes de raptores, esquadrões de morte e mercenários. Estamos encurralados numa guerra civil. Os pashtuns, que são a maioria dos talibã e que são os governantes tradicionais do Afeganistão debatem-se com os tajiques e com os uzbeques que constituem a Aliança do Norte, que, com a ajuda externa, ganharam a guerra civil de 2001. A antiga Aliança do Norte domina agora o governo incompetente e corrupto. É profundamente odiada. E irá cair connosco.
Estamos a perder a guerra no Afeganistão. Há oito anos, quando invadimos o país, os talibãs controlavam cerca de 75% do Afeganistão. Hoje o seu domínio regrediu para cerca de metade do país. Os talibãs são os senhores do comércio de papoilas, que gera cerca de 300 milhões de dólares anuais. Levam a cabo, de uma forma descarada, ataques em Cabul, a capital, e os estrangeiros, temendo raptos, raramente se passeiam pelas ruas da maioria das cidades afegãs. Deslocarmo-nos até ao interior sem a protecção de militares da NATO, onde vivem 80% dos afegãos é correr perigo de vida. No entanto, jornalistas mais audazes entrevistam oficiais talibãs em cafés da baixa de Cabul.
Osama Bin Laden tornou-se, para divertimento do resto do mundo, no "Where is Waldo?" do Médio Oriente. Se retirarmos as balas e as bombas temos uma comédia de Gilbert e Sullivan.
Ninguém parece saber explicar a razão pela qual estamos no Afeganistão. É para capturar Bin Laden e a Al-Qaeda? É para consolidar o progresso? Declarámos guerra aos talibãs? Estamos a construir uma democracia? Estamos a combater terroristas lá para não termos que os combater aqui? Estamos a "libertar" as mulheres do Afeganistão? O absurdo das perguntas, utilizadas como argumentos falaciosos, expõem o absurdo da guerra. A confusão dos objectivos espelha a confusão no terreno. Não sabemos o que estamos a fazer.
O general Stanly MacChrystal, o novo comandante das tropas norte-americanas e da NATO no Afeganistão anunciou recentemente que as forças da coligação devem proceder a uma "mudança cultural" no Afeganistão. Referiu que devem afastar-se da sua orientação habitual de combate e passar à protecção de civis. Entende que os ataques aéreos que têm causado centenas de mortes entre civis, são uma ferramenta poderosa de recrutamento para os talibãs. O objectivo é um pouco ambicioso mas a realidade da guerra desafia à sua implementação. As forças da NATO pedirão apoio aéreo sempre que estiverem sob ataque. Este é o procedimento que os militares debaixo de fogo têm. Não se podem dar ao luxo de comunicar com a população civil primeiro. As perguntas serão feitas mais tarde.
O ataque aéreo de 4 de Maio na província de Farah, que matou dezenas de civis, violou ordens em vigor sobre ataques aéreos, bem como o da província de Kandahar na semana passada em que quatro civis foram mortos e 13 foram feridos. O ataque da NATO visava uma povoação no distrito de Shawalikot. No hospital da capital da província, os habitantes feridos relataram à AP que os helicópteros de ataque começaram a bombardear as suas casas cerca das 22h30 de quarta-feira. Um homem referiu que a sua neta de 3 anos de idade foi morta. O combate cria as suas próprias regras e os civis são quase sempre os perdedores.
A ofensiva das forças da NATO na província de Helmand seguirá o habitual cenário desenhado pelos comandantes militares, que sabem muito de sistemas de armamento e de exércitos convencionais e pouco sobre as nuances de uma guerra irregular. Os talibãs irão provavelmente retirar-se para os santuários no Paquistão. Nós declararemos a operação como um sucesso. A nossa presença será reduzida. E os talibãs rastejarão de volta para as áreas que declarámos "limpas". As minas na estrada continuarão a sua contagem mortal. Soldados e fuzileiros, frustrados de tentar combater um inimigo esquivo e muitas vezes invisível, sairão numa furiosa invectiva contra fantasmas o que irá aumentar os números de civis mortos. É um jogo mais antigo que a própria guerrilha e ainda assim, cada geração de guerreiros julga possuir a chave mágica da vitória.
Assegurámo-nos que o Iraque e o Afeganistão são Estados falhados. De seguida na nossa lista aparece o Paquistão. O Paquistão, tal como Iraque e o Afeganistão, é uma construção bizarra dos poderes ocidentais que desenharam fronteiras artificiais e arbitrárias que os clãs e os grupos étnicos divididos por estas linhas ignoram. Enquanto o Paquistão se foi desenvolvendo, o seu exército buscou legitimidade no Islão militante. Foi o exército paquistanês que criou os talibãs. Os paquistaneses determinaram como eram aplicados os biliões de dólares de ajuda norte-americana à resistência durante a guerra contra a ocupação soviética do Afeganistão, que por pouco não foi quase todo para as alas mais extremistas do movimento de resistência afegão. Os talibãs, aos olhos do Paquistão, não são apenas um uma arma eficaz para derrotar invasores estrangeiros sejam russos ou americanos, mas também um baluarte contra a Índia.
Os muçulmanos radicais em Cabul jamais irão construir uma aliança com a Índia contra o Paquistão. E a Índia, não o Afeganistão, é a preocupação principal do Paquistão.
O Paquistão, não importa quantos biliões lhes dermos, irá sempre proteger e promover os talibãs, que é sabido que irão herdar o Afeganistão. E a bem publicitada batalha do governo com os talibãs no Vale de Swat do Paquistão, mais do que um novo começo, é uma charada coreografada que nada faz para quebrar esta aliança diabólica.
A única forma de derrotar grupos terroristas é isolá-los dentro das suas próprias sociedades e isto requer afastar a população dos radicais. É uma guerra política, económica e cultural. A terrível estatística final da ocupação militar e violência é sempre contraproducente para este tipo de batalha, gera sempre mais insurrectos do que os que elimina. Legitima sempre o terrorismo. Enquanto destroçamos recursos e vidas, o verdadeiro inimigo, a Al-Qaeda, mudou-se criando redes na Indonésia, Paquistão, Somália, Sudão e Marrocos e comunidades muçulmanas deprimidas como as que existem em Lyon em França ou na área de Brixton em Londres. Não faltam esconderijos no mundo onde a Al-Qaeda possa esconder-se e operar. Não necessita do Afeganistão e nós também não.
Publicado a 20 de Julho de 2009 em Truthdig
Tradução de Cláudia Belchior
» 6 Comentários
6"Estados Terroristas"em 05 de Agosto de 2009 10:20por Antonio Catatau
Muito se fala em Terrorismo mas quem sao os Terroristas?-Claro sao todos os paises que invadiram e agrediram o Irak e o Afeganistao.Que violaram as leis Internacionais e a das Nacoes Unidas.Pois e o verdadeiro Terrorismo de Estados.Vejamos so no Irak estes Terrorista ja mataram mais de 300.000 mil civis. e no Afeganistao ja mataram mais de 100.000 civis.Vivemos num mundo de verdadeiros Estados Terroristas.Que invadem e cometem crimes.O Terrorismo cemeia Terrorismo.

5"O PORQUÊ DA GUERRA NO..."em 04 de Agosto de 2009 07:11por zaratustra70
São 2 partes... ...agora, já não tem a DESCULPA de dizer que não sabiam... http://www.youtube. com/watch?v=fy9JCDchk34 Cumpr imentos

4Comentáriosem 03 de Agosto de 2009 18:52por Mendex
A actual crise que o ocidente atravessa foi criada propositadamente para abrandar o consumo e consequentemente a economia oriental. Este facto, juntamente com a presença crescente de militares ocidentais no médio oriente são os únicos trunfos que OBAMA leva para a próxima cimeira com a CHINA. Cyber piratas militares chineses atacam quase diáriamente instituições americanas. O pentágono em Abril de 2007 foi obrigado a desligar os PC´s das fichas eléctricas para parar um ATQ que durou 4 meses.

3Comentáriosem 03 de Agosto de 2009 18:53por Mendex
Numa visão abrangente porque não olhar para a presença dos ocidentais no médio oriente como: 1º- Garantir energia petróleo para a economia ocidental se manter evitando que o oriente em expansão lhe deite a mão. 2º- Tampão para o dia em que os Chineses vierem por aí fora se depararem alí com a 1ªa linha defensiva do ocidente. Pela Russia não vêm pois os russos estão minimamente preparados.

2"Prof. Aposentado"em 03 de Agosto de 2009 18:53por Julio Sousa
Mas, querem maiores terroristas que os que dominam a Casa Branca!!!. O terrorismo não se combate com terrorismo. Este é um jogo de interesses em que estão metidos diversos lobbies, dentre eles o mais poderoso é o lobby sionista de cariz ortodoxo. As guerras nunca acabarão, enquanto o mesmo jogo de interesses se mantiver.Claro que no Afeganistão irão ser derrotados como o será qualquer força invasora e quanto mais tempo la estiverem, mais desgastados de lá sairão.

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Sou alguém que gosta de liberdade,gostava de ser nómada, o meu sonho é viajar de auto-caravana,não ficar presa a lugar nenhum. Não tendo essa possibilidade, prefiro viver em autosuficiência,em harmonia com a natureza, do que viver presa a um emprego, presa ao consumismo, e a todas as imposições que dai advêm. Não gosto de preconceitos nem tabus,nem ideias pré-concebidas,acho que nos tiram a liberdade de pensar,impedindo de ser livres.Não gosto de religiões, que são feitas de ideias pre-concebidas e absurdas,irracionais,e que levam as pessoas a ser facilmente manipuladas,e a fazer guerra,para beneficio, de alguns. Também não gosto de futebol,por se ter tornado , num espectáculo de diversão para abstrair as pessoas,dos verdadeiros problemas da sociedade,e que serve também para mafiosos fazerem lavagens de dinheiro.