As
estações públicas de televisão perderam a capacidade de influenciar o panorama
geral no que concerne ao conteúdo programático das suas emissões.
Há
demasiado dinheiro envolvido e o filtro ético está cada vez mais frouxo,
permeável ao tráfico de influências, à ditadura das audiências, ao protagonismo
fácil, à propaganda manifesta, implícita e subliminar e por aí fora…
Os
elos que formam a cadeia de cumplicidades tácitas saem reforçados à medida que
o torniquete do lucro asfixia a liberdade de expressão.
A
televisão foi e continua a ser usada com êxito absoluto como arma de destruição
maciça, na disseminação da pandemia de apatia de que sofrem milhões de
telespectadores à escala global.
A
lógica consumista atinge o paroxismo no que ao consumo televisivo diz respeito,
estimulando a dependência de hábitos de passividade física e astenia mental
mórbida.
O
teatro de marionetas foi paulatinamente introduzido no palco televisivo
principal controlado a partir dos bastidores, por quem tem poder para
isso.
Após
esta breve introdução de teor pessimista, não acredito que a utopia tenha lugar
na televisão pública?
A
televisão tem que ser um agente catalítico capaz de estimular no telespectador
o entusiasmo pela acção e o fascínio pela vida.
A
programação, mais do que transmitir informação e conhecimentos, para além de
atafulhar o telespectador de entretenimento, melhor seria despertar o espírito
criativo, o sentido crítico bem fundamentado ao invés de o atascar num atoleiro
de informação contraditória, incompleta e descontextualizada. e a tocar um
instrumento musical, dando a conhecer o bem estar emocional que daí pode advir,
a interacção, a descoberta de si e dos outros, formas de vencer inibições
profundas, despertar a necessidade que todos sentimos de forma difusa de
aperfeiçoamento espiritual que só pode ser despertado quando sentimos o
fascínio que a vida, por si mesma pode despertar em nós, a peculiar
sensibilidade humana, o sentido épico.
Não
deixar as pessoas à mercê de especialista que discorrem sobre tudo, mas que em
nada contribuem para o desabrochar da pessoa.
A
utopia não tem lugar na televisão.

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