A Terra é plana e o Sol aquece-a
10-Feb-2010Em 1988 foi fundado o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), um órgão consultivo da ONU. O seu objectivo é fornecer aos governos do mundo uma revisão da ciência sobre as alterações climáticas, elaborando periodicamente relatórios que contam com a participação de cientistas de várias áreas e países. Estes relatórios mostram aos políticos como a libertação de gases com efeito de estufa (resultante sobretudo da queima de combustíveis fósseis), está a provocar um aumento da temperatura média global e a causar perturbações no clima que tornam a nossa vida neste planeta cada vez mais difícil.
O IPCC não inventou nada de novo, limitou-se a sintetizar as descobertas da ciência. Como as decisões são tomadas por consenso, os estudos com resultados mais extremos tendem a ser ignorados, pelo que os relatórios do IPCC são moderados nas conclusões que apresentam. Daí que seja frequente as previsões do IPCC sobre aumento da temperatura média, subida do nível médio do mar ou degelo do Árctico, por exemplo, serem ultrapassadas por estudos mais recentes.
Como os membros do IPCC são nomeados pelos governos, as pressões políticas fazem-se sentir constantemente, na medida em que a redução de emissões coloca em causa o negócio das empresas ligadas ao petróleo, carvão ou gás natural. Em 2001, por exemplo, a Exxon pediu ao governo de George W. Bush substituir o presidente do IPCC, Robert Watson, visto como muito radical1. Watson acabou por ser substituído por Rajendra Pachauri, um homem ligado à indústria da energia, um ano depois.
Este exemplo é apenas um entre muitos que mostram como as grandes corporações tentam descredibilizar as descobertas científicas que representem um perigo para os seus interesses. Já em 1992, a tabaqueira Philip Morris contratou a APCO, uma empresa de relações públicas, para formar falsas frentes de cidadãos contestando as interdições ao consumo de tabaco em locais fechados. Foi assim criada a "The Advancement for Sound Science Coalition", uma organização suportada pela indústria para defender a inocuidade do tabaco, negar o aquecimento global e apoiar a expansão dos transgénicos e da energia nuclear.
As tabaqueiras eventualmente desistiram de negar a ligação entre o fumo de tabaco e o cancro mas entretanto uma estrutura estava montada que permitiu a empresas como a Exxon negar a ligação entre as emissões de dióxido de carbono e o aquecimento global. Actualmente, uma rede de think-tanks de direita norte-americanos, financiados pelas maiores empresas dos EUA, recorre a todo o tipo de tácticas para defender o livre mercado, atacar os serviços públicos e associar a defesa do ambiente ao colapso económico. Esta rede financia o estudo de vários negacionistas climáticos, permitindo que possam divulgar nos média ideias refutadas na literatura científica, e estendeu já os seus tentáculos ao resto do mundo, criando através da Atlas Foundation think-tanks negacionistas for dos EUA.
Actualmente, podemos ver como o negacionismo climático conseguiu dominar o debate mediático. Um ataque de pirataria informática revelou e-mails da Universidade de East Anglia pouco abonatórios para a reputação dos climatologistas que lá trabalham. Algumas frases retiradas do contexto foram suficientes para colocar em dúvida a investigação destes cientistas, embora os seus resultados tivessem sido passado a revisão pelos pares2. Embora os e-mails demonstrem um comportamento tribal de cientistas com um ego enorme, não demonstram qualquer manipulação da ciência. Mas isso não impediu os negacionistas de declarar a morte da teoria do aquecimento global antropogénico.
Mais grave foi a denúncia de que o IPCC teria usado fontes não fiáveis nos seus relatórios. Num dos relatórios, o IPCC conclui que os glaciares nos Himalaias poderiam derreter até 2035. A conclusão está errada e foi retirada não de um estudo científico mas de uma entrevista à Science. Um erro sério mas que poderia ser desprezado no meio de milhares de páginas de ciência e que deveria servir apenas como um aviso para usar sempre fontes credíveis. O erro, contudo, serviu uma vez mais para alimentar a histeria negacionista e acusações de manipulação da ciência uma vez mais choveram sobre o IPCC.
A ironia da história é que a teoria de que o aquecimento global é provocado maioritariamente por variações naturais na radiação solar foi já desmentida há muito tempo na literatura científica. Aos negacionistas climáticos, no entanto, não lhes é exigido que demonstrem as suas teorias, basta que coloquem as teorias contrárias às suas em causa para que se tornem estrelas mediáticas.
Mesmo contando com as variações naturais no clima, a influência das emissões de gases com efeito de estufa no aumento da temperatura global está bem documentada. Muitas dúvidas persistem sobre a ciência das alterações climáticas (recentemente, por exemplo, um estudo publicado na Science mostrou que a influência do vapor de água no aquecimento global é superior ao que se pensava) mas a ideia geral de que devemos reduzir emissões rapidamente e drasticamente para podermos continuar a viver neste planeta tem sido constantemente reforçada pela ciência.
Utilizar a incerteza científica e teorias da conspiração para adiar as medidas necessárias para estabilizar o clima é profundamente irresponsável. Por isso é que é lamentável que uma parte (felizmente residual) da esquerda opte por alinhar em teorias da conspiração e defender a ideia de que a ciência das alterações climáticas é uma mentira criada com o fim de vender novos produtos (como energias renováveis) ou serviços (como o mercado de carbono), como se vê, por exemplo, em textos recentes publicados no Avante.
Não compreender que a defesa do meio ambiente se entrelaça com a justiça na distribuição de recursos, que os mais pobres são quem mais sofre com a crise ambiental e que as questões ambientais são questões sociais é cair no vazio da inacção que apenas beneficia um capitalismo assente no crescimento contínuo do consumo, legitimado pelo fetichismo da mercadoria. Isto nada tem a ver com a esquerda, que está sempre do lado da acção transformadora e emancipatória e da verdade. Daí que a justiça climática seja uma luta da esquerda moderna, sendo o obscurantismo negacionista apanágio da direita conservadora.
Ricardo Coelho
1 O documento original pode ser descarregado em http://www.nrdc.org/media/docs/020403.pdf.

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