O americano tranquilo
14-Jan-2010
Durante a campanha eleitoral, Obama prometeu, com entusiasmo febril de candidato, que aprofundaria a guerra no Afeganistão, como uma espécie de "compensação" pela retirada do Iraque. Hoje, está atolado no Iraque e no Afeganistão. Pior: está prestes a atolar-se, também, numa terceira guerra.
Por Uri Avnery
O Americano Tranquilo é o herói do romance de Graham Greene sobre a primeira guerra do Vietname, na qual os franceses foram derrotados.
Era um norte-americano jovem e ingénuo, filho de um professor, que fora bem educado em Harvard, um idealista com todas as melhores intenções. Quando chega como soldado ao Vietname, queria ajudar os nativos a superar os dois principais males que via lá: o colonialismo francês e o comunismo. Sem saber coisa alguma sobre o país onde estava, provocou um desastre. O romance termina num massacre - resultado dos esforços desorientados do "americano tranquilo". Comprovou-se a velha máxima: "A estrada para o inferno é pavimentada de boas intenções".
Já se passaram 54 anos depois de esse livro ter sido escrito, mas parece que o americano tranquilo não mudou. Ainda é idealista (pelo menos, acredita que seja idealista), ainda deseja levar a redenção a povos estrangeiros distantes sobre os quais nada sabe; e ainda provoca desastres terríveis: aconteceu no Iraque, no Afeganistão e agora, parece, no Iémen.
* * *
O exemplo do Iraque é o mais simples de todos.
Os soldados norte-americanos foram mandados para o Iraque para derrubar o regime tirano de Saddam Hussein. Havia, é claro, outros objectivos menos altruístas, como assumir o controlo do petróleo iraquiano e instalar o exército dos EUA no coração da região petrolíferra do Médio Oriente. Mas a aventura foi apresentada ao público norte-americano como empreitada idealista contra um ditador sanguinário que ameaçava o mundo com bombas nucleares.
Isso, há seis anos, e a guerra prossegue. Barack Obama, que se opôs à guerra desde o início, prometeu tirar os norte-americanos de lá. Apesar de muita conversa, não há fim à vista.
Porquê? Porque os que realmente tomam decisões em Washington não têm nem ideia do que é o país que querem libertar e ajudar a viver feliz para sempre.
Desde o início, o Iraque foi um Estado artificial. Os britânicos costuraram umas às outras várias províncias otomanas, considerando os seus, dos britânicos, interesses coloniais. Coroaram um árabe sunita como rei dos curdos, que não são árabes, e dos xiitas, que não são sunitas. Só uma sucessão de ditadores, cada um mais brutal que o antecessor, impediu que o Estado se esfacelasse.
Os planeadores de Washington não têm qualquer interesse na história, na demografia nem na geografia do país que invadiram com força brutal. O caso, olhado de Washington, pareceu bem simples: alguém teria de derrubar o tirano, estabelecer instituições democráticas à maneira dos EUA, fazer eleições livres... E tudo o mais entraria "naturalmente" nos eixos.
Ao contrário das expectativas, os norte-americanos não foram recebidos com flores. Não se encontrou lá a terrível bomba atómica de Saddam. Como o elefante na loja de porcelana do provérbio, quebraram tudo, destruíram o país e acabaram presos num pântano.
Depois de anos de operações militares sangrentas que levaram a parte alguma, encontraram afinal uma panaceia. Para o inferno o idealismo; para o inferno os altos ideais; para o inferno todas as doutrinas militares. - Hoje, os EUA não fazem outra coisa além de subornar os chefes tribais que, sim, são a realidade do Iraque.
O americano tranquilo não sabe como se safar de lá. Sabe que, se sair agora, há risco de o país se auto-desintegrar em matança geral.
* * *
Dois anos antes de invadir o Iraque, os norte-americanos invadiram o Afeganistão.
Porquê? Porque uma organização chamada Al-Qaeda ("a base") declarara-se autora da destruição das Torres Gémeas em Nova York. Os chefes da Al-Qaeda estavam no Afeganistão, era lá que estavam os seus campos de treino. Para os norte-americanos, tudo pareceu simples - ninguém precisou pensar outra vez (de facto, parece, ninguém tampouco pensara antes).
Se os EUA conhecessem o país que decidiram invadir, talvez tivessem hesitado. O Afeganistão é um histórico cemitério de exércitos invasores. Grandes impérios saíram de lá com o rabo entre as pernas. Diferente do Iraque, que é plano, o Afeganistão é país montanhoso, um paraíso para a guerra de guerrilhas. Além de ser lar de vários povos e de incontáveis tribos, cada povo e cada tribo é furiosamente zeloso da própria independência.
Os estrategistas em Washington não tomaram conhecimento de nada disso. Para eles, parece, todos os países são idênticos, todas as sociedades são iguais. No Afeganistão, também, bastaria estabelecer uma democracia livre à moda dos EUA, com eleições à moda dos EUA e viva! - tudo daria certo e para sempre.
O elefante entrou na loja de porcelanas sem pedir licença e obteve vitória estrondosa. A Força Aérea "bombou", o exército não encontrou obstáculos, a Al-Qaeda sumiu como fantasma, os talibans ("estudantes religiosos") fugiram como coelhos. As mulheres poderiam voltar a andar pela rua sem véus, as meninas encheriam as escolas, os campos de ópio voltariam a florescer - e também floresceriam sem obstáculos os amigos de Washington em Cabul.
Contudo... a guerra prossegue, ano após ano, o número de norte-americanos mortos sobe inexoravelmente. Para quê? Ninguém sabe. É como se a guerra tivesse adquirido vida própria, sem quê nem por quê, sem objectivo, sem razão. Norte-americano que esteja no Afeganistão e olhe em volta, tem de perguntar-se: o que diabos estamos a fazer aqui?

Sem comentários:
Enviar um comentário